UMA ANÁLISE CRONOLÓGICA SOBRE OS PRINCIPAIS
PROGRAMAS TELEVISIVOS INFANTIS - PARTE 1

     

O primeiro programa veiculado pela televisão brasileira destinado às crianças foi transmitido pela extinta e pioneira TV Tupi em 1951, e consistiu de uma remota adaptação das histórias narradas pelos livros seriados de Monteiro Lobato “O sítio do pica-pau amarelo”. A exibição era ao vivo e o formato como uma espécie de tele-teatro. As ferramentas de produção eram ainda limitadas, muitas narrações partiam da arte do improviso. Teve audiência bastante escassa devido ao inexpressivo número de televisores no país.

     
A turma brinca de estátua no terreiro do sítio, no episódio A Raiz Milagrosa de 1978.
 

 

Em 1972, quando ocorreu certa expansão por parte da população à aquisição de televisores, a Rede Globo produziu uma versão tupiniquim de “Vilá Sézamo”, uma série de origem americana que tinha a intenção de educar através de quadros pedagógicos. O cenário era uma vila onde interagiam personagens humanos e bonecos. As crianças elegeram como ídolo o boneco Garibald.
Mesmo objetivando a aprendizagem de conceitos acadêmicos de maneira lúdica, o programa, apesar do estrondoso sucesso, foi muito criticado por educadores do período, pois, a didática apresentada, possuía um caráter bastante “americanizado”distanciando o conteúdo da real significação para os telespectadores mirins.
Ainda na década de 70, mais especificamente no ano de 1977, também a rede Globo em parceria com a TVE Rio supervisionadas pelo Ministério da Educação, adaptou mais uma vez “O sítio do Pica-pau Amarelo” de Monteiro Lobato para a telinha, mas dessa vez moldado exatamente com a linguagem televisiva.
A estréia do programa Vila Sézamo pela Rede Globo.  
   

 O formato era, incrivelmente, inovador. Utilizava-se dos melhores recursos audiovisuais e efeitos especiais da época mas, apesar da tecnologia, o roteiro de autoria de Benedito Ruy Barbosa, salientava toda a brasilidade, alegria, fantasia e criticidade dos textos originais e, uma análise mais apurada classifica-o como uma produção infantil de aspecto educativo indireto.
O jornalista e presidente da rádio fluminense Roquete Pinto, o ex-senador da República, Arthur da Távola, em discurso no I Simpósio Brasileiro de Televisão, Criança e Imaginário da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo do ano de 1996, destacou a eficácia pedagógica do programa alegando que os personagens desenvolviam o cultivo da identidade nacional com construções  positivas sobre os afro-descendentes e sobre os idosos. Ele partiu da análise sobre as posições ocupadas por Tia Nastácia, Dona Benta e Tio Barnabé no enredo e, suas observações apontaram que Lobato foi fiel às condições sócio-históricas da época e os representa em cargos correspondentes àquela realidade, logo, Dona Benta é a patroa, Tia Nastácia e Tio Barnabé os empregados da fazenda, porém, todos são queridos e considerados pelas crianças da trama como conservadores de sabedoria e, ainda que saberes distintos –  sabedoria popular, sabedoria acadêmica e sabedoria natural respectivamente -  ambos se tornavam extremamente válidos no desenlace das aventuras da turminha. Nenhuma cultura se contra-põe à outra, o processo é de integração.


Benedito Ruy Barbosa.
   

“Quanto ao aspecto de conteúdo: a integração racial e social do grupo do Sítio. Lobato colocou todos os grupos sociais e étnicos num sítio do interior do Brasil, operando preciso corte sociológico de classe e de cor, salvo formas ocultas presentes em qualquer microgrupo da sociedade global. O que quero dizer com isso? Tia Nastácia, que é negra e empregada, tem participação direta na vida da família e ocupa o mesmo status de Dona Benta. Mas, ao mesmo tempo, a precisão sociológica o levou a colocar Nastácia como empregada. Esse é o retrato sociológico. O tratamento nunca é preconceituoso e sim de integração: ela é uma das sábias do grupo, um dos pontais afetivos do grupo.” (TÁVOLA, pg.46)

Narizinho deixa Emília cair da charrete na primeira semana do Programa em março de 1977
 
   

Também ressalva os personagens Emília e Visconde, cuja personalidade astuta, curiosa e questionadora, pode promover na criança o desenvolvimento da criatividade e a capacidade de reflexão sobre o mundo.
Renato Pacheco, autor-folclorista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo, dividiu as obras de Lobato em três categorias. Segundo ele temos: as Obras de instrução (as estórias em que de alguma forma, o autor direciona para a aprendizagem da gramática, matemática, astronomia e ciências); as Obras de diversão (narrativas de conteúdo fantasmagórico, de punho puramente fictício); e as Obras mistas (aventuras em que a trama apresenta uma mistura de conceitos acadêmicos e imaginários.)
Para a elaboração do roteiro televisivo, escolheram-se as mistas e as de diversão visto que, as de instrução continham teorias já defasadas pela Ciência. Essa escolha permitiu, de acordo com a análise de Távola baseado na categorização de Pacheco, a difusão de uma “pedagogia lobatiana” equilibrada que ensinava e entretia permeada pela idéia de uma educação condutora dos valores da vida, focalizadora de uma infância inteiramente brasileira.
O programa permaneceu no ar por nove anos e deu lugar às produções que começaram então, a merecer maior preocupação por parte de educadores e pais devido forte ligação com a sociedade Neo-capitalista.

 

Temos nas décadas de 80 e 90, uma programação voltada para a formação dos consumidores mirins e do estímulo precoce à sexualidade.
Naquela época, outras emissoras começavam a se fortalecer, por isso havia “no ar “ uma grade diversificada de programas abrangendo horários desde às sete da manhã até às cinco da tarde. O conteúdo e o formato deles, apesar de elaborados por equipes diferentes, de maneira geral eram semelhantes.
A publicidade reconheceu a criança como público lucrativo, aliou-se à televisão e ganhou cada vez mais espaço para lançamentos infanto-juvenis à partir da programação matinal e estabeleceu com a garotada uma relação imediata de consumismo, como afirma Lígia Chiappinni, professora titular de Teoria Literária e Literatura comparada da USP:
“As crianças aprendem a dialogar com a TV e são ‘alfabetizadas’ para ler o universo propagandístico antes mesmo de ingressarem na escola. Elas estão presentes dentro e fora da tela como garotos-propaganda, atores-mirins, telespectadores e, principalmente como consumidores em potencial.”


Comercial dos anos 80 que utiliza criança como "garoto(a) propaganda".
     

A principal ferramenta de marketing dessas décadas foi a utilização das próprias crianças como protagonistas das campanhas publicitárias tanto para anunciar produtos destinados à elas próprias quanto para aqueles cujo consumo, atingia outra faixa-etária e utilizando-se o carisma infantil atingiam diretamente o público-alvo desejado.
A indústria fonográfica também abriu espaço para o chamado talento infantil e surgiram os astros mirins da música. A fala de Tomas Muñoz, criador do quarteto Balão Mágico, em entrevista à revista Isto É em 1984 comprova a cartada de mestre lançada: “A criança, hoje, começa a ver televisão muito cedo e, lá pelos 6, 7 anos, já pede para o pai comprar o que ela vê anunciado. Quando gente tão jovem está consumindo, é natural que a indústria fonográfica faça um produto para esse mercado".

 
Grupos Infantis como "A Turma do Balão Mágico" no alge da indústria fonográfica infantil.
     
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A segunda parte desta matéria continua em breve
por: Hellen Mavit