Reportagem especial da Revista ISTOÉ
em 19 de setembro de 1984 sobre o grupo Balão Mágico, um dos maiores grupos infantis da década de 80.
Navegue pela reportagem ouvindo o especial Balão Mágico do Kids 80
|
 |
|
capa da revista IstoÉ de 19/09/1984
|
Era uma vez, no país da Tropicália, uma menina chamada Simony. Um dia - já faz três anos - um mago muito esperto chamado Tomas Muñoz viu a garotinha cantando na televisão, numa de suas apresentações no circo que o palhaço Raul Gil tem na TVS, em São Paulo, e ficou maravilhoso. Imediatamente mandou seu aprendiz de feiticeiro Ed Carlos (ex-ídolo da velha jovem guarda) levar Simony para o seu castelo de ouro, a CBS. E lá, junto com outros dois meninos - Tob e Mike -, o mago Muñoz bolou a fantástica poção mágica da alegria. Juntou as vozes dos três pequenos no caldeirão eletrônico de um estúdio, sapecou truques infalíveis como os arranjos musicais de Lincoln Olivetti, gritou abracadabra e, pluft! - lá estava a turma chegando em todas as rádios do país. De cara, gravaram um LP, e uma porção de crianças logo começou a cantar com eles Oh! Suzana, Meu Trolinho e Tem Gato na Tuba, entre outras músicas. Foram vendidas, até hoje, 800 mil cópias desse disco.
Dom Muñoz esfregava as mãos ao ver aquele tremendo sucesso, no final de 1982, e bradou com seu sotaque espanhol: "Abracadabra de novo!". No ano seguinte, veio outro LP. A faixa Superfantástico, interpretada no disco também por Djavan, empolgou muita gente grande. De repente, em março daquele ano, Simony, Mike e Tob começaram ttambém a aparecer todos os dias na Rede Globo, brincando no programa Balão Mágico. Pra quê: o feitiço voltou para o feiticeiro com um sucesso nunca visto antes entre menores de idade: 1,3 milhão de discos saíram das lojas até agosto passado. |
Por isso não deu outra: agora o poderoso Tomas Muñoz resolveu carregar no caldeirão e trouxe um rei de verdade - Roberto Carlos - para cantar com a turma. Desde a semana passada, os fãs do mais jovem (e rico) trio da música popular brasileira - acrescido, agora, de mais um membro, Jairzinho - podem ouvir as novidades que estão no LP que leva seu nome, Turma do Balão Mágico nº3. Baby Consuelo voltou a cantar com a turma, como havia feito em 1983. E outros dois príncipes, Fábio Jr e Pepeu Gomes, também toparam entrar na roda.
Dom Muñoz nem precisa consultar sua bola de cristal; sabe que vêm mais cifras e recordes de vendagem, estonteantes, principalmente porque, duas semanas antes do lançamento do disco, as lojas de todo o Brasil já haviam garantido a venda de 600 mil unidades. Coisa de dar inveja até a fadas-madrinhas como Rita Lee (sempre detendora das 700 mil cópias), Simone (média de 500 mil) e Maria Bethânia, a única que já ultrapassou o milhão de discos vendidos. Acima da Turma do Balão Mágico, só mesmo o Rei - imbatível campeão que, anualmente, passa dos 2 milhões.
Com isso, Simony já poderia estar certa de viver seus dias de Cinderela, aos 8 anos de idade, Mas as estrelinhas que brotam de uma varinha de contão chamada fama são inesgotáveis. Simony e seus amigos estão participando da campanha de vacinação anti-rábica Amigo Não Merece Raiva, a convite do governo federal, que produziu comerciais institucionais para TV e imprimiu nada menos que 13 milhões de cartazes com o retrato da turma, para serem afixados em ônibus, trens e todo tipo de parede deste Brasil. Mantendo ainda o pique de fenômeno único da MPB, o grupo tem um folheto de divulgação com trinta páginas coloridas (ilustradas pelo departamento de quadrinhos da Editora Abril), que pela primeira vez na história do showbiz, tem patrocínio - de flocos de milho, bicicletas e chicletes. Na TV, ele faz também a linha superfantástica: enquanto uns poucos artistas têm o seu videoclip tirado da faixa mais forte de seus discos, a Turma do Balão Mágico aparecerá em cinco. E ganhou uma hora inteira na TV Globo, estrelando seu primeiro musical, Amigos do Peito, que será levado ao ar nesta sexta-feira, 21, às 9 da noite - nobreza total.
A turma do Balão são na verdade cinco crianças - Simony, 8 anos, Tob, 13, Mike, 10, Jairzinho, 9, e Luciana, 5, mas o time raramente está completo. No programa diário da Rede Globo (das 10h30m às 12h), gravado em São Paulo, Mike quase nunca aparece, pois mora no Rio.
No disco, é Luciana quem falta. E Jairzinho não viaja com seus quatro companheiros para shows pelo Brasil. O que é que essa turminha tem que muitos astros marmanhos não têm? Tomas Muñoz, 50 anos, o presidente da CBS no Brasil, garante: "A criança, hoje, começa a ver televisão muito cedo e, lá pelos 6, 7 anos, já pede para o pai comprar o que ela vê anunciado. Quando gente tão jovem está consumindo, é natural que a indústria fonográfica faça um produto para esse mercado".
|

Simony, Mike, Tob e Jairzinho com o rei Roberto: juntos num disco e na TV e liderando os mais vendidos

O trio original: sucesso imediato

Viagens pelo interior: lotação garantida em estádios e ginásios.
|

na equipe do "Show", 35 pessoas

Chapéu, botão e bandeirinha: tudo pela turma.
|
Mas mesmo dentro dessa perspectiva, a Turma do Balão Mágico faz discos bem diferentes dos outros que são dirigidos ao público infantil. A gravadora Ariola, por exemplo, lançou LPs de Vinícius de Moraes tentando captar o universo infantil Mas Muñoz é cético. "A mensagem culta de um disco como A Arca de Noé, por exemplo é digna de elogios, mas fica longe da sensibilidade das crianças", opina. "Nós simplesmente tentamos refletir o que as crianças podem captar com facilidade, com letras que tratam de seus problemas." Para quem acha o repertório da Turma do Balão Mágico bobo demais, excessivamente calcado em versões, Edgar Barbosa Poças (ator de comerciais, compositor de jingles e outor da versões) esclarece: "Quando fui chamado para montar o primeiro LP da turma, fiz uma pesquisa e gravei 52 músicas nacionais, de Villa-Lobos a folclore. Mas só consegui incluir quatro no disco - e, poxa, já foi uma vitória".
Edgar incluiu Cowboy do Amor, de Wilson Batista, Meu Trolinho, de Ari Barroso, PR-Você, de Hervê Cordovil, e Tem Gato na Tuba, de João de Barro. Foi uma briga, para ele, conseguir essa seleção em meio à montoeira de fitas mexicanas, espanholas e caribenhas que a CBS normalmente lhe impõe. Mesmo assim, Edgar consegue driblar o "esquemão" acompanhando a própria evolução das crianças da turma. "No primeiro disco, era mais uma coisa 'do patinho'; no segundo, as letras falam mais da escola; neste, as versões têm mais malícia, namoro, outra relação." Isso, ao lado de Palha e Aço, que os brasileiríssimos Moraes Moreira e Béu Machado fizeram exclusivamente para o disco.
O público, fiel, prestigia os heróis dessa aventura. Compra o disco e, além de assistir ao programa matinal da TV Globo, garantindo uma média de audiência de 30% em todo o Brasil, lota os shows da Turma do Balão Mágico pelo interior. São sempre apresentações em ginásios ou estádios de futebol (afinal, criança leva acompanhante), comandadas pelo empresário Paulo Ricardo, 36 anos - outro bruxo esperto, que há um ano substituiu Mônica Neves, sobrinha do presidenciável oposicionista Tancredo Neves, na assistência empresarial ao pessoal do Balão. Os ingressos custam em torno de 4 mil cruzeiros e a produção não é das mais exigentes - um palco de armação de ferro com um tablado simples e música de fita, com playback. Há brincadeiras e piadas dos figurantes Dilim, Pé de Bode e Bolinha, Palhacinha, Galinha Magricela e Minhocão (integrantes de uma trupe que soma 35 pessoas em cada viagem. |
O show empolga pelo fascínio que a platéia sente em ver seus pequenos ídolos, em terceira dimensão, ao vivo e em cores. Tambem apaixonados, os pais não se furtam a desembolsar um dinheiro a mais para seus pequenos - e assim chapéus, bandeirinhas de papel e botões da Turma do Balão Mágico saem aos milhares, ao preço de mil cruzeiros cada. "Hoje, qualquer coisa que faça alguma referência à turma tem público garantido", diz Paulo Ricardo, feliz proprietário da Global Empreendimentos Artísticos, que empresa os shows do grupo, conta com dez funcionários fixos e um faturamento sobre o qual ele faz segredo. O suficiente, em todo caso, para lhe render bom lucro depois de pagar o cachê fixo de 1,5 milhão de cruzeiros por show a cada integrante da turma, mais as passagens e despesas do hotel não só para as estrelas como também para os seus acompanhantes. |

Êdi Newton dirige a turma: um doce tirano seis horas por dia.

Hora do lanche: Jairzinho aguarda nos bastidores, os técnicos trocam de turno.
|
"Quando o Oto Pescini, que interpretava o Fofão (um cachorro extra-terrestre), se afastou do programa, a Simony sentiu demais", lembra Maricleusa mãe de Simony. "Por motivos comerciais que ela não entende, o Fofão deixou de gravar o programa e Simony ficou doente." Por isso, quando acha que estão puxando demais sua menina, Maricleusa não hesita em interferir e discutir com a produção e a direção do programa. "Muita gente me diz, 'VocÊ é louca, com isso aí sua filha vai ficar milhionária'", conta. " Mas eu respondo que isso não me interessa. nâo é massacrada que ela vai ter futuro." Filha e neta de artistas de circo - seu pai, dono do Circo Teatro América, tem a lona guardada até hoje -, Maricleusa não tem medo de, como ela diz, "perder tudo". "Eu sempre trabalhei e criei a Simony", orgulha-se. Morando em São Paulo em um dos três apartamentos de propriedade de sua estrelinha (que possui ainda um sobrado, também em São Paulo), Maricleusa vive com os pais e o marido, Jorge, dono de uma panificadora. Feliz, apesar de ser obrigada a mudar o número do telefone periodicamente, para fugir dos trotes e ameaças. E acha muito natural o sucesso que a filha tem agora.
Nascida no meio artístico (grávida, Maricleusa tocava contrabaixo acústico em festas e bailes do interior), Simony Benelli Galaço canta desde que se conhece por gente. Primeiro entrou para shows de circo da família; logo passou a integrar o programa de Dárcio Campos, na TV Bandeirantes (em 1981); depois passou pelo palco do Programa Raul Gil, na TVS - até ser chamada pela CBS e, quando o primeiro LP atingiu o Disco de Ouro (100 mil cópias vendidas), pela Globo, Simony conta o que faz com o 1,4 milhão de cruzeiros mensais que ganha na TV: "Eu compro brinquedo, presentes pro meu irmão Leandro (1 ano e 7 meses), e pra minha mãe compro bala...". Quando não passeia pelo conto de fadas da vida artística ela é, portanto, uma menina como qualquer outra. |

Simony e a mãe, Maricleusa, na saída da escola: vida real.
Para o irmão Leandro, presentes.
|
Estudante da 2ª série do Colégio Rio Branco, Simony consegue sair pelo portão junto com os colegas - e não mais nos braços de um segurança que a protegia, tempos atrás, do assédio dos fãs escolares. Seu sonho atual é ter uma chácara, que logo mais será providenciada. Tem um buggy, igual ao que seus companheiros de Turma do Balão Mágico ganham da produção do programa no último Natal. E, para o futuro, faz planos mais chegados à vida real: "Eu quero ser médica de tirar nenê pra nascer".
Mas por enquanto Simony segue como a fada-madrinha de milhares de fãs, de todas as idades, que invariavelmente lhe pedem autógrafo - são tantos que já mandou fazer cartõezinhos com retrato e dedicatória: "Com uma beijo carinhoso da Simony".
Mas ela também tem ídolos. Apesar de dividir solos da faixa É Tão Lindo, do novo disco, com Roberto, ele não é o primeiro - antes vem Fábio Jr., uma constante em seus botões coloridos, retratos no quartinho e discos na vitrola. "Eu adoro ele", confessa. Sabendo disso, no seu aniversário, 1º de julho, a Globo fez uma surpresa: colocou o cantor por trás do cenário e depois registrou um choro a quatro olhos. "Simony é uma menina especial, tem um espírito iluminado, é uma gracinha", diz Fábio, pai de uma menina de 2 anos, Cleo, de seu casamento com Glória Pires.
|
Mike o pai-herói, Ronald Biggs: uma aventura com final feliz
|
Michael Biggs, o Mike, é o garoto que salvou a pele de seu pai - Ronald Biggs, 54 anos, o lendário cidadão inglês que assaltou o trem postal Londres-Glasgow em 1963 e se refugiou no Brasil. Pai de um brasileiro, não pode ser expulso nem extraditado. "Se é um milagre eu estar aqui hoje, é um duplo milagre ser pai de um menino como Mike", diz Ronald, que vive com o filho e uma arara chamada Fred num apartamento comprado pelo dinheiro do garoto em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Foi justamente por causa de uma incrível aventura vivda por Biggs que Mike entrou para a Turma do Balão. Em 1982, o simpático assaltante foi sequestrado no Rio de Janeiro e levado para o Caribe. Mike, pela televisão fez um apelo ao governo de Barbados, para que devolvesse seu pai - e o astuto Muñoz, que assistia ao programa ficou encantado: acho Mike "um ator natural". Ele sabe cantar?, perguntou a Biggs. "Só Oh! Suzana, quando brinca de velho oeste", foi a resposta.
|
Tudo bem: do LP, que já estava pronto, foi retirada uma faixa, para que Mike entrasse com sua música favorita. Pode ser até que ele tenha puxado para o lado artístico da família Biggs: Ronald conta que sua mãe cantava bem e que sua irmã imitava Carmen Miranda. Ele mesmo, há quatro anos, foi convidado para participar do filme Rock'n'roll Swindle, pelo grupo inglês pré-punk Sex Pistols, que visitou Copacabana. Biggs aceitou e cantou uma música de sua autoria, No One Is Innocent - lançada, com sucesso, em compacto simples na Inglaterra. Ele não recebeu um tostão de direitos, mas não se importa: "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, não é mesmo?".
Mike faz a 3ª série no Centro Educacional Santa Tereza, vai sempre à praia, adora contar piada sobre irlandeses. "Diz aí que eu vou ser um grande lutador de boxe e um jogador de rugby também", pediu a ISTOÉ. Na entrevista que a TV Asahi, de Tóquio, gravou na semana passada com a Turma do Balão Mágico, ele foi a melhor surpresa: contou de um a dez em japonês. "Não sei o que ele vai ser quando crescer", diz Ronald, "só gostaria que tivesse um futuro diferente da minha vida vinte anos atrás". |
Tob - apelido que a CBS deu a Vimerson Cavanillas Benedicto - está indeciso: se não seguir a carreira artística, será jogador de futebol. Estudante da 5ª série do Colégio Maria Imaculada, em São Paulo, vive entre essas duas paixões: o futebol de salão (ganhou medalha de ouro no último campeonato da escola) e a música. "Quando fica nervoso ou inquieto, ele põe um disco na vitrola ou começa a tocar bateria", conta dona Rosa, sua mãe. O pai, Onofre, funcionário aposentado da Volkswagen, acredita que o filho será um bom músico, como seu irmão mais velho, Valdir, 21 anos. "Eles cantavam juntos quando Tob era ainda menininho, num show chamado 2001, que saía pelo interior", lembra ele. Logo Tob virou garoto-propaganda, começou a fazer desfiles para confecções infantis, participou do programa Raul Gil e, finalmente, foi seduzido pela CBS - que paga 3% da renda líquida dos LPs a cada integrante da turma. Tob está juntando seu dinheiro "pra comprar um pick-up igual ao Duro na Queda" - seriado exibido pela Globo que ele grava sempre em seu vídeo-cassete. Já tem um bom apartamento no bairro de Vila Mariana, onde mora com a família, e uma caderneta de poupança que os pais fizeram desde que ele começou a "ganhar melhor".
Jairzinho, a mais recente aquisição do Balão, ainda não tanto dinheiro na sua frente. Filho do cantor Jair Rodrigues, ficou famoso recentemente, depois de gravar com o pai, em italiano, a música Io e Te. Na Itália, onde o autor dessa canção, Franco Fontana, cuida dos discos e show de Jair-pai, Jair-filho é sucesso absoluto: vendeu 55 mil cópias do compacto simples em quatro meses.
E é para Itália que a família toda embarca no próximo fim de semana. Jair vai seguir em turnê e Jairzinho participará, por onze semanas, de um programa na televisão, o Domenica In.
Luciana, finalmente, uma espécie de Fadinha Tilim dessa turma - loura, malandra, camarada, linda -, também já gravou um compacto duplo, pela Polygram, com o hit Eu Quero Fazer Pipi, Papai. Filha de Mari-rose, 29 anos, tia de Simony, ela participa dos shows que rodam o interior e planeja tornar-se "médica de velhinhos" quando crescer. Enquanto isso, faz o pré-primário na Escola Recrearte e entrou há duas semanas para a escola de balé moderno.
|
Tob no colégio, nota dez em futebol.
Com os pais, Rosa e Onofre: Almoço rápido antes das gravações.
|
A quem aposte no fim desse conto de fadas, como se a carruagem estivesse prestes a virar abóbora por causa do desgaste que muitas vezes acompanha um sucesso retumbante. Há quem acredite no contrário: que essa meninada está apenas começando uma carreira que ainda terá muitos discos, shows, programas, viagens, beijos, brigas, bocejos e sucesso pela frente. Mas a turma parece passar ao largo das especulações. Eles estão se divertindo à beça, irradiando energia. E é por isso que todo mundo quer viajar nesse balão. |
............
Jair-pai e Jair-filho em casa: sempre unidos.........................................................Luciana: Fada malandra. |

Fim de expediente sobre as cartas: Luciana dorme entre os fãs.

Sob refletores: as raras aparições de Mike

Intervalo de gravação: Tob treina o gol de bicicleta

Capa de um dos discos de maior sucesso do grupo
|
|